sábado, 26 de abril de 2014

O que você viveu ninguém rouba.

O que você viveu ninguém rouba.
Seus amores secretos, tempestades e estiagens, sonhos alagados de ideais, as vezes tão pueris e ingênuos. Seu pendor artístico, os gestos incompletos, sorrisos entregues às luzes do anoitecer, pálpebras que piscam com suavidade, mistérios da alvorada. Todas estas riquezas lhe pertencem. Esta é a sua abastada herança, que se manterá pulsante, enquanto você, com suas vestes de carne fresca ou amadurecida, deslizar entre a terra dos homens.
Ainda que você envelheça e já no limiar da morte, perceba fugirem suas memórias ou a consciência delas. Mesmo que submetido ao cansaço dos anos, se curve na presença de lembranças anêmicas, os seus pertences, desbotadas fotos, ainda estarão lá. Guardados na caixa de preciosidades que compõem toda a sua vida.
Ainda que você queira enterrar ou incinerar experiências, elas permanecerão flutuando. Ligeiras e leves como um pássaro pequeno. Enquanto a vida soprar em suas veias, em algum canto do seu coração, o seu álbum de histórias permanecerá intacto.
Mesmo que você tente se sabotar de diversas formas, sonegar da consciência pendores e raros talentos, eles ainda continuarão existindo. Talvez assustados, tímidos e encolhidos na antessala do seu espírito. Porque verdade seja dita: nem mesmo você, por mais que se esforce, consegue roubar a si próprio. _ De Gabriel García Márquez.

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