O Processo Histórico da Loucura
O Processo histórico da loucura implica em vários momentos da vida social da humanidade. Esse processo sempre esteve engajado naquilo que se considera padrão ou norma, fundamentado pela sociedade. Na idade média, o processo criado e difundido desde os parâmetros da doença lepra, atualmente conhecida como hanseníase. Esta patologia “desaparece” do mundo ocidental, permeada num contexto religioso, basicamente devido ao modo de tratamento. A lepra se retira do contexto social deixando nos lugares obscuros e nos ritos, que a destinam a suprimí-la, numa distância sacramentada numa exaltação inversa aos termos estruturados da igreja
Naquela época, tanto os portadores desta enfermidade (lepra) quanto os portadores das doenças sexualmente transmissíveis, são designados a tratamento de ordem moral de exclusão, as cidades européias designavam aos que contraíam estes tipos de doença a morte. A morte social despojando-o de sua identidade jurídica e, como era considerado morto, era expulso da cidade.
Em contrapartida a este contexto, surgi como herança deste modo de olhar as enfermidades, o fenômeno Loucura. Desse modo, o grande instrumento de normalização social é construído na sociedade da época.
A real existência de que a insanidade deve ser controlada, trata-se de uma medida geral, pois os munícipes ordenavam o expurgo da loucura, como um estado de vagabundagem, entretanto, outros fatos comprovam que o sujeito improdutivo não era a tão defendida situação caótica, certos loucos recebidos nos hospitais eram tratados como loucos, escorraçados das cidades, a não ser certas cidades medievais que tomavam conta de seus “cidadãos loucos”, pois existiam donativos em pról da sanidade. Surge nesta época os lugares de peregrinação, dando a entender que as naus de loucos, simbolicamente, eram os insanos em busca da razão. Outras cidades, “acolhiam” um grande número de loucos, acima do que podia oferecer, existiam alojamentos mantidos pelo orçamento da cidade, sem cuidados, eram jogados na prisão.
A história apresenta que a preocupação no cuidar e no excluir, era reduzida no espaço sagrado do milagre, mesmo a igreja não permitindo o acesso aos loucos, somente o uso dos sacramentos: “(...) lugar de peregrinação que se tornou prisão, terra santa onde a loucura espera sua libertação, mas onde o homem realiza, segundo velhos temas, como uma partilha ritual” .
A relação da igreja, com a insanidade de um padre, fundamenta-se na sua expulsão com uma solenidade particular “como se a impureza se acentuasse pelo caráter sacro da personagem, e a cidade retira de seu orçamento o dinheiro que devia servi-lhe de viático”.
É importante ressaltar que o campo dos diversos métodos de controle da insanidade, com a influência da medicina em conjunto com a religiosidade no controle da vida dos indivíduos, restringia à manutenção e convívio com o diferente, com alguns procedimentos de manifestação pública, como chicoteando alguns loucos em praças públicas e, como num jogo, eram perseguidos com bastonetes e escorraçados das cidades, para se ter a certeza de que iriam longe, aprisionados pela suas próprias partidas, o tratamento ao louco, está na exclusão, tortura e humilhação.
A água também tinha uma representação simbólica, pois confiar os loucos aos marinheiros elucidava a certeza de que não teriam trânsitos de insanos entre os muros da cidade.
O imaginário construído da cultura ocidental é associado à água e a loucura, a inquietude do mar, dos caminhos desconhecidos que emolduram estranhos saberes, a infinidade de desejos e o desatino do que é conceituado como mundo, um cenário inverso ao mundo sólido, da terra propriamente dita materializada nas sólidas cidades.
O imaginário e o real associam-se na expressão de um novo modo de vida, enquanto que a Fé em Deus e a ligação com o mundo sólido são separadas da vida social. Ao navegar por caminhos incertos, confiar a sua vida aos astros, partilhar segredos, afastar de sua família, faz com que o homem se entregue ao diabo e ao oceano de suas artimanhas, gerando uma complexidade naquilo que se apresenta como razão humana e a estrutura da sociedade.
Assim, a loucura vai tomando uma outra forma, simbolizando toda a inquietude da cultura no final da Idade Média. Até a segunda metade do século XV, a sociedade assume a imagem das pestes e das guerras, um papel que a Idade Média não reconhecia, porque a pobreza tinha um sentido de predestinação, uma castidade do supremo, enquanto na Renascença, a pobreza é conseqüência de atos humanos, de estigmas e negligências. As doenças tomam outros aspectos, na lepra o caminho era o da exclusão, enquanto que na peste era de controle. As cidades eram fechadas e divididas em quarteirões, suas casas eram inspecionadas para constatar a existência de doentes. Um modelo dominante de inclusão, cujo objetivo era detectar o foco da doença e que ocorre até hoje. A Loucura dá lugar ao pensamento técnico e livre, proporcionando a busca do conhecimento para recriar uma realidade construída sobre um olhar vigiado da igreja e dos detentores de poder.
A Loucura nesta libertação de significações espirituais fascina porque é um saber. Um saber de difícil acesso, fechado e temível, tomando uma das próprias formas da razão. Ao se desdobrar, a Loucura constitui e institui um signo que trai a sua existência, ameaçando a vida perturbada, inquietante, irrisória com tragédias no mundo externo, comprometendo as relações da subjetividade e da verdade. No século XVII, criou as casas de internamento, desempenhando um papel de assistência e de repressão. No século XVIII, tomou forma moral para não desestabilizar a ordem dos indivíduos na cidade. No século XIX, a hospitalidade que o acolhe baseia-se numa medida de saneamento que o coloca fora do caminho, à ciência utilizou-se do Higienismo_ movimento de controle à saúde e a qualidade de vida, da psicologia Clínica e da Psiquiatria.
Pinel neste século, encontrará neste cenário, loucos esquecidos e que um dia proporcionaram a nossa libertação, surpreende a sociedade na tentativa de reintegrá-lo, retirando as correntes dos internos e com livres acessos nas instalações.
O conceito de normalidade faz gerar um movimento chamado de exclusão. O sofrimento psíquico é parte da constituição e construção da subjetiva de qualquer sujeito, este sofrimento não pode ser diferenciado do normal e do anormal, mas enquanto diversas formas de cuidar do portador deste sofrimento. São estas diversas formas de atendimento, que os princípios antimanicomiais foram refletidos e discutidos na formação de uma consciência crítica. O paciente deve ser ouvido e a sua voz deve dar crédito as suas decisões, construindo seu projeto de vida, concordando ou não com seu tratamento e participando dele em regime de liberdade..
Aualmente o conceito de saúde mental encontra-se no movimento da reforma psiquiátrica, que ainda propaga com muitos desafios e dificuldades na gestão a rede de atenção; como alocação de recursos financeiros do SUS repercutindo no seu modelo assistencial refletindo nos serviços substitutivos; um significativo aumento da demanda em saúde mental; modelo hospitalar, ainda dominante, gerando uma politica ideológica dos hospitais psiquiátricos; fragilidades no acesso; diversificação das ações das equipes multidisciplinares; qualificação da formação profissional e o imaginário social pautado no preconceito, estigma e rejeição em relação ao conceito de loucura. As equipes participantes nos serviços de saúde mental ainda produzem a institucionalização, partindo do princípio de que formas manicomiais expressam na subjstividade em todo o espaço-tempo, atravesando suas ações. A idéia é caminhar para a linguagem, estudar e avaliar registros nas zonas onde engendram processos minoritários ou não, mas buscando aquilo que se revela de forma naturalizada, mas também o que escapa ao discurso da racionalidade dominante. As politicas de reabilitação social do indivíduo que foi institucionalizado e excluído da sociedade, devolvendo a eles a cidadania e seus direitos enquanto seres humanos através de práticas de reabilitação psicossocial, desconsiderando um “paradoxo estrutural”, ou seja, desconsiderando todo pré conceito a respeito do louco que já encontra-se enraigado na sociedade e que vem sendo construído ao longo dos anos. Hoje visa-se somente a busca moderna pela liberdade, igualdade e fraternidade e esta busca deveria basear-se também na consciência cidadã, ou seja, não é possível desinstitucionalizar e inserir na sociedade um sujeito estigmatizado pela mesma sociedade a qual tenta se inseir. Assim, esclarecem:
Portanto, acreditamos que para descobrir o que foi construído, pode potencializar a loucura como diferença com base na recusa das violentas técnicas psiquiátricas que se desenvolvem com uma função social de varrer formas de existência sem rupturas, seja enquanto uma realidade. Estas questões confirmam ser a reforma psiquiátrica a construção de um novo lugar sociopolítico-conceitual-cultural para a loucura, de novas formas de lidar com a diferença.
Para a desinstitucionalização da loucura, existem vários desafios, sendo dois muito importantes para a construção de uma nova trajetória histórica do fenômeno Loucura, a desmitificação do confinamento e controle, estamos passando da sociedade disciplinas para uma sociedade de controle. As sociedades disciplinares atuam basicamente pelas instituições de confinamento, como: família, escola, hospital, prisão, fábrica. No entanto, depois da segunda guerra mundial, essas instituições entram em crise e desmoronam os seus muros. Assim, a familia nuclear burguesa pulveriza-se; e escola entra em colapso; o manicômio torna-se hospital-dia; a fábrica se atomatiza da acumulação flexível; mas, por mais paradoxal que possa parecer, a lógica de controle se generaliza. Desta forma, não existe mais escola e sim processo de educação permanente, sendo a própria vida uma incessante e grandiosa escola; não existe mais produção restrita à fábrica, mas trabalha-se em casa; não existe mais lazer apenas nos espaços de lazer, consumo apenas nos locais de consumo. Portanto, quando as fronteiras dos espaços são borradas, tudo vira escola, tudo vira empresa, etc. É o processo social vigente reeditando a vocação de que tudo tende ao maximalismo no paradigma da modernidade, fruto de uma luta nos campos ético, político, epistemológico, tecnológico e cultural.
SILVA, A.P.R.R; PITERSKIH, A.R; BASILE, G.C; CARVALHO, L.B; SANTOS, R.M.A; BONFANTI,T.D. RAHIN, M.A. (orientador) Os paradigmas do processo socio-histórico do sujeito institucionalizado no movimento anti-manicomial do município de Santos/SP, 2008 Estudos Orientados, Curso de Psicologia, Instituto de Ciências Humanas, UNIP - Universdade Paulista. Santos – Rangel, 2008.
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